Por Rudá Américo de Oliveira

É de Dostoievski uma fantasia sobre a aparição de Jesus na Espanha da  Inquisição. “Apareceu suavemente, sem se fazer notar; (…) o povo comprime-se à Sua passagem. Silencioso, passa pelo meio da multidão com um sorriso de compaixão. Tem o coração abrasado de amor (…) E eis que passa o grande inquisidor”, que sabe quem Ele é e prende-o. À noite, visita-o em sua cela e fala-lhe: “O espírito terrível falou contigo no deserto: ‘Queres ir para o mundo de mãos vazias, levando aos homens a promessa de liberdade da qual eles têm pavor, porque nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade! Estás vendo estas pedras. Transforma-as em pão e atrás de ti correrá a humanidade agradecida e obediente’. Entretanto, não quiseste privar o homem da liberdade e rejeitaste a proposta, pois pensaste: que liberdade é essa se a obediência foi comprada com o pão? Se tivesses consentido no milagre dos pães, terias acalmado a eterna inquietação da humanidade: ‘diante de quem se inclinar?’ Querias ser livremente amado, voluntariamente seguido. Em vez da dura lei antiga, o homem devia, daí por diante, discernir, de coração livre, o Bem e o Mal. Há três forças, as únicas que podem subjugar para sempre a consciência destes fracos revoltados: são o milagre, o mistério, a autoridade! O homem repele Deus, porque é o milagre que ele busca. E, como não é capaz de passar sem ele, forja os seus próprios milagres, e inclina-se diante dos prodígios dum mago. Não querias escravizar o homem com um milagre; desejavas uma fé que fosse livre e não inspirada pelo maravilhoso. Corrigimos a Tua obra fundando-a sobre o milagre, o mistério, a autoridade. E os homens alegraram-se, porque eram de novo levados como um rebanho. Vamos dar-lhes uma felicidade humilde e branda, permitir-lhes-emos ou proibiremos que vivam com as mulheres ou as amantes, que tenham filhos ou não. Hão de submeter-nos os segredos mais dolorosos; resolver-lhes-emos todos os casos e hão de aceitar a nossa decisão com alegria, porque lhes poupará o grave cuidado de escolherem por si próprios, livremente. E todos serão felizes; embalá-los-emos, para sua felicidade, com uma recompensa eterna no Céu.”

Este texto tão atual me fez pensar no que acontece com muitas pessoas que se submetem à regra de um guru que as embale com certezas de milagres e prosperidade. O que é isso, senão o eterno medo da liberdade de uma relação com Deus, sem intermediários, medo que começou quando o homem se escondeu atrás das árvores do Éden?