O elogio do silêncio
Por Rudá Américo de Oliveira
Num mundo onde tudo é “para ontem”, mais do que nunca se faz urgente escutar o inefável som do silêncio. No meio de uma “cidade a zunir”, como dizem os versos de Chico Buarque, o “elogio do silêncio” é imperativo, se queremos trabalhar em nossas vidas.
É no período intermediário entre a apostasia da igreja e a Reforma que a prática do silêncio com Deus surge como uma luz no meio das trevas. Tudo começa quando Antão se retira para o deserto para viver em oração e jejum, sendo imitado por muitos descontentes com a situação da igreja. Nascem então os monges ou Pais do Deserto.
No cenário inóspito do deserto, homens e mulheres famintos de Deus encontrarão o recolhimento propício a uma análise do coração e à conversão. Longe do bulício e das honrarias, o monge medita nas Escrituras e nessa prática – lectio divina – confronta a si mesmo para viver a imitação de Cristo. De tanto conhecerem a si mesmos, esses primeiros “psicólogos” levam ao “deserto” multidões de peregrinos, atraídos pela sua fama de sábios nas questões da alma. É a origem dos monastérios.
“O silêncio é empregado pelos monges como um meio na luta pela pureza do coração e honestidade interior” (Anselm Grün). O silêncio deve ser um desapego para com as fantasias da alma (emoções, tristezas, vãs ocupações dos pensamentos), as lembranças do passado, os anseios e antipatias, o auto-louvor, o julgamento contra pessoas, as angústias e dores da alma e as fantasias acerca de mim mesmo e de Deus. É o que Kierkegaard chama de “remédio para a doença interior”.
Para mim, o silêncio com Deus tem sido uma vivência que me faz logo de manhã ordenar as emoções e os pensamentos, objetivar meu dia e alinhá-lo com a vontade de Deus. Além disso, uma experiência que se transforma num veículo de purificação, autoconhecimento e libertação. Nesse jejum de palavras e idéias; nesse encontro subjetivo entre a minha interioridade e o Deus que me ama; nesse santuário onde não entram as exigências e acusações alheias, nem as preocupações com o hoje e o amanhã… Aí brotam a Palavra, a orientação, a sabedoria, a cura, a libertação ou – mesmo que nada disso aconteça – a simplicidade de eu me saber filho amado, o saborear a relação segura com um Pai que me sonda e me conhece e ainda assim insiste em me amar.

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