Depois que meus olhos foram abertos para a maravilhosa realidade da justificação pela fé em Cristo Jesus, comecei a perceber que muito daquilo que ensinávamos na Santa Igreja estava longe da verdade revelada nas Escrituras. Eu não podia mais aceitar a idéia de que o perdão de Deus pudesse ser comprado por dinheiro ou mesmo “liberado” pelo Santo Padre. Eu ansiava por reformas dentro da Igreja que tanto amava. Minha idéia não era causar uma ruptura ou incitar a revolta, mas apenas rever algumas questões que claramente contradiziam as Escrituras.
Não demorou muito, porém, para que eu descobrisse que havia muitos outros interesses agindo contra a verdade d as Escrituras. Naquela época, o Papa Leão X desejava revitalizar a Igreja e o caminho escolhido foi a construção da grande Catedral de São Pedro — ele imaginava que uma grande construção poderia desviar a atenção dos grandes problemas da Igreja. A questão é que um projeto como esse custaria uma fortuna e a Igreja não estava muito bem nas suas finanças. Para aumentar a sua arrecadação e executar a obra, então, a cúpula da Igreja tramou uma conspiração, que incluiu a venda abusiva e vergonhosa de cargos eclesiásticos e indulgências — documentos da Igreja que supostamente garantiam o perdão dos pecados e o livramento do fogo do inferno.
Entra em cena, então, o monge dominicano Tetzel, o mais conhecido e habilidoso vendedor de indulgências da época. Sua estratégia era provocar o medo do inferno para então vender o “perdão de Deus”. Ele tinha até um poema que dizia o seguinte: “quando uma moeda no fundo o cofre cai, a alma direto para o céu vai”. Quando Tetzel chegou em Wittenberg, não agüentei ver aquela gente humilde ser enganada com a idéia de que o perdão de Deus podia ser comprado por dinheiro. Escrevi 95 idéias sobre o assunto e, no dia 31 de outubro de 1517, véspera do “dia de todos os santos” (que reuniria uma grande multidão na capela da cidade), preguei o texto na porta da capela do castelo. Era um chamado para o debate…
A partir daí, pude sentir na pele o peso da minha decisão. Negar o poder das indulgências significava negar o poder mediador da Igreja entre Deus e os homens. Além disso, a arrecadação com a venda de indulgências começou a cair drasticamente. Imediatamente uma forte perseguição se levantou contra mim, mas cada vez mais eu me convencia de que estava no caminho certo.
A esta altura eu não escondia de ninguém que os Concílios da Igreja e o Papa podem errar e que a palavra final sempre deveria ser das Escrituras. Recebi, por isso, a bula papal “Exsurge Domine” (Levanta-te Senhor), que me dava 60 dias para uma retratação. Além disso, o papa havia dado ordens para que todos os meus escritos fossem queimados. Com a cabeça quente, acabei queimando a bula em praça pública.
Foi quando o inevitável aconteceu: em 1521 fui excomungado pelo papa e convocado para comparecer no grande parlamento do Império, diante de príncipes e arcebispos. A reunião transcorreu num clima tenso; eu tentei de todas as formas me explicar e defender as idéias da Bíblia… De nada adiantava: perante os poderosos, eu continuava sendo um “herege”… No final, quando o Imperador me perguntou se estava disposto a retratar-me, um silêncio sepulcral se fez no Parlamento e eu respondi, do fundo do meu coração:
“Já que me pede uma resposta simples, darei uma que não deixa margem a dúvidas: a não ser que alguém me convença pelo testemunho da Escritura Sagrada ou com razões decisivas, não posso retratar-me. Pois não creio nem na infalibilidade do papa, nem na dos concílios, porque é manifesto que freqüentemente têm se equivocado e contradito. Fui vencido pelos argumentos bíblicos que acabo de citar e minha consciência está presa na Palavra de Deus. Não posso e não quero revogar, porque é perigoso e não é certo agir contra sua própria consciência. Que Deus me ajude. Amém!”
A partir deste momento, o Parlamento se tornou uma grande “panela de pressão” e, no meio da confusão, meus amigos simularam um seqüestro, tirando-me dali e levando-me para o castelo do príncipe da Saxônia, Frederico, que me protegeu. Ali, durante um período reflexão e quietude, traduzi toda a Bíblia para o idioma alemão. Enquanto isso, o movimento revolucionário crescia e atingia cada vez mais pessoas. Em 1529, o parlamento voltou a se reunir para decidir o que fazer com essa situação e a maioria votou pela intolerância e perseguição aos hereges. Neste momento, os príncipes que concordavam com as minhas idéias se levantaram e leram sua carta de protesto. Por causa desse protesto, até hoje os seguidores deste movimento de reforma são chamados de “protestantes”. Atualmente, segundo algumas estatísticas, existem cerca de 700 milhões de protestantes no mundo.
Esta é a minha história. O triste, porém, é que andando por aí, tenho visto que muitas igrejas ditas protestantes têm perdido muitos dos princípios pelos quais tanto lutamos. Como, por exemplo, depois de tanta luta contra as indulgências, ainda podemos ver igrejas que vendem a bênção de Deus, iludindo e explorando os fiéis? Como, em algumas igrejas protestantes, a autoridade proveniente de visões e supostas revelações pode ser superior à autoridade da Bíblia? Em virtude disso, deixo com você algumas perguntas para refletir: Onde estão os reformadores de hoje? Onde está a justificação pela graça mediante a fé? Onde está a convicção de pecado? Onde estão os pregadores da Palavra?…
Pr. Clinton César

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