Meu Nome é Martinho Lutero (Parte 1)

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Deixe-me apresentar: meu nome é Martinho Lutero. Nasci em 10 de novembro de 1483, na cidade de Eisleben, que naquela época fazia parte do Sacro-Santo Império Romano Germânico. Vivi tempos difíceis, de muitas transformações sociais e políticas, com o declínio do Feudalismo e o surgimento e fortalecimento dos Estados nacionais. Foi um tempo de muitas guerras e conflitos. As cidades estavam crescendo e com elas a fome, a pobreza e as moléstias — um surto de Peste Negra, como na época nós chamávamos a peste bubônica, chegou a dizimar um terço de toda população da Europa, matando 25 milhões de pessoas. Naquela época, as pessoas morriam cedo e o clima era de muita desordem, ansiedade e pessimismo.

A Igreja, que deveria ser um lugar de vida, acabava por confundir e aterrorizar ainda mais a nossa cabeça, com as ameaças do castigo eterno e a estranha matemática da salvação — diziam que Cristo e os santos tinham alcançado tanto mérito durante as suas vidas terrenas (mais que o necessário para a própria salvação) que um “excedente de boas obras” estava guardado em depósito especial, no céu, de onde o papa poderia sacar no interesse dos fiéis vivos e daqueles que, segundo acreditavam, estavam no purgatório pagando pelos seus pecados. Nunca me convenci disso. Na verdade, o sentimento predominante era de desespero. Cresci com duas certezas: a) sei que vou morrer, e b) não sei para onde vou.
A Busca:

Filho de camponeses, tive uma educação muito rígida (lembro que uma vez, quando menino, apanhei até sangrar depois de roubar uma noz). Meu pai queria que eu fosse advogado, mas quando eu tinha 22 anos, um evento marcou e redirecionou a minha vida. Ah! Posso me lembrar como se fosse ontem… Eu estava passando por uma estrada perto da cidade onde estudava, quando desabou uma tempestade fortíssima, que me assustou e me apresentou a morte cara a cara. Naquela hora de pânico, fiz um voto a Santa Ana, prometendo que, se saísse daquela, iria me tornar monge. Três semanas depois entrei para um mosteiro da ordem agostiniana e dois anos depois, aos 24 anos, fui ordenado ao sacerdócio e celebrei minha primeira missa.

Na verdade, eu era movido pelo medo da morte e de ir para o inferno. Desde que entrei para o mosteiro, procurei de todas as formas possíveis me livrar deste medo e encontrar a paz. Eu jejuava quase todos os dias, fazia inúmeras vigílias de oração e algumas vezes eu chegava a até mesmo a chicotear o meu próprio corpo, na tentativa de matar meu impulso pecaminoso. Por mais que eu tentasse ser justo, porém, a minha consciência sempre me acusava e o sentimento de culpa diante de Deus me consumia cada vez mais.

Certa vez, viajei até Roma na tentativa de encontrar algum alívio para o meu coração inquieto. Só encontrei mais dúvidas (o que vi não posso nem contar, de tão imundo – muita luxúria e corrupção em todos os níveis). Para livrar meu pai do sofrimento do purgatório, cheguei a subir de joelhos a Scala Sancta, a escadaria que se diz ter sido trazida da casa de Pilatos, repetindo em cada degrau o Pai Nosso. Ao chegar no topo, me fiz a seguinte pergunta: será que tudo isso é verdade?

O Encontro:

Com 28 anos, fui transferido para a cidade de Wittenberg, ao norte do Império. No ano seguinte me tornei professor de Bíblia e recebi o título de doutor em teologia. Apesar disso, minha busca frenética continuava… Tendo, então, que ensinar Bíblia na Universidade de Wittenberg, passei a estudá-la como nunca. De alguma forma comecei a perceber que aquele livro seria o único lugar aonde eu poderia achar uma resposta para a minha ansiedade.

Quando comecei a estudar a carta de Paulo aos Romanos, e cheguei no verso 17 do capítulo 1, alguma coisa aconteceu: noite e dia eu ponderei até que vi a conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que “o justo viverá pela fé”. Então eu compreendi que a justiça de Deus era aquela pela qual, pela graça e pura misericórdia, Deus nos justifica através da fé em Cristo Jesus. Com base nisto eu senti estar renascido e ter passado através de portas abertas para dentro do paraíso. Toda Escritura teve um novo significado e, se antes, a idéia de um Deus de justiça me enchia de ódio, agora ela se tornara para mim um portão para o céu.

Minha procura tinha chegado ao fim. A paz que eu tanto anelava não estava nas estruturas religiosas ou mesmo na tentativa de ser justo aos olhos de Deus, mas na fé que eu devia colocar em Cristo. Descobri, então, que a verdadeira religião não era algo que eu fazia para Deus, mas algo que Ele fez por mim. A certeza do perdão e da aceitação de Deus encheu minha vida de força e alegria. O que aconteceu depois disso…

Pr. Clinton

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