Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus. (Miquéias 6.8)
Vivemos dias em que a religião se transformou num meio de auto-satisfação. A preocupação atual da religiosidade ocidental, de um modo geral, não é mais com as questões eternas, com o relacionamento com Deus, mas com o bem-estar do homem. As pessoas não pensam mais em religião como uma maneira de se “acertarem com Deus”, mas como um meio de conseguirem coisas de Deus. Hoje quando buscamos uma igreja, queremos o carro, queremos o namorado, queremos a cura, queremos o emprego, queremos a prosperidade, queremos a bênção… E Deus se torna apenas um meio de alcançar isso tudo!
Por causa disso, é hora de voltarmos à verdade bíblica de que a verdadeira religião não está relacionada com aquilo que queremos de Deus, mas com aquilo que Ele quer de nós e para nós. A verdadeira religião é teocêntrica (Deus nos centro) e não antropocêntrica (o homem no centro). O profeta Miquéias proclama que “Ele (Deus) te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti…”
Geralmente, nos preocupamos muito mais com aquilo que pedimos a Deus do que com aquilo que Ele nos pede. Geralmente, pensamos muito mais na bênção do que na obediência… E o pior é que muitas vezes estamos dispostos a dar a Deus aquilo que Ele definitivamente não pede de nós. Era o que estava acontecendo no tempo do profeta Miquéias, que ironizou: “Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite?” A resposta implícita no texto é um sonoro “NÃO!” Deus não está simplesmente à procura de sacrifícios, rituais e manifestações. Se tudo isto não for uma legítima expressão de um coração perdoado e transformado, não passará de forma sem conteúdo, embalagem sem essência. Um dos grandes desafios da igreja nos dias de hoje é mudar o seu conceito de espiritualidade, muitas vezes vinculado a manifestações exteriores. Ser espiritual e agradar a Deus não significa necessariamente levantar as mãos, chorar no culto, se emocionar, falar em “línguas”, ter um louvor animado etc.
O que o Senhor pede de ti:
a) Que pratiques a justiça
Houve um tempo em que os evangélicos eram conhecidos por sua integridade, sua retidão, sua justiça. Infelizmente, hoje, mais do que nunca, é preciso levantar a voz profética de Miquéias e dizer que Deus está mais preocupado com uma vida reta e justa do que uma expressão cúltica bem elaborada. É triste perceber que nós, evangélicos, profissionalizamos nossa música, refinamos a nossa retórica, incendiamos de emoção os nossos cultos… e perdemos a nossa credibilidade perante o mundo.
Nos tempos de Miquéias, o povo vivia numa profunda desordem social, onde cada um só queria se dar bem, onde o mais forte oprimia o mais fraco, onde o mais rico explorava o mais pobre. Nesse contexto, o profeta levanta a voz e diz que não adianta nada fazer sacrifícios e ofertar, se a vida está torta, se o coração está longe de Deus, se o que está por dentro não está coerente com o que está por fora. O grande rei Davi disse, no Salmo 40: “Sacrifícios e ofertas não quiseste; abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não requeres”, mas “agrada-me fazer a tua vontade… dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.6,8).
b) Que ames a misericórdia
Muitas vezes estamos dispostos a praticar a justiça, a ter uma vida reta, mas não nos dispomos a exercer a misericórdia. Geralmente, quando erramos, queremos misericórdia, mas quando o irmão erra, queremos justiça. Queremos ser tratados com misericórdia, mas só queremos tratar os outros com justiça. Queremos que os outros tenham paciência com os nossos erros, mas não queremos ter paciência com os erros dos outros. O contraste entre praticar a justiça e amar a misericórdia está claro: devemos usar a mente conosco e o coração com o irmão. Repare que o texto diz: “… que pratiques a justiça, e que ames a misericórdia”. A justiça é uma prática pessoal e a misericórdia é uma ação do coração em relação ao outro.
c) Andes humildemente com teu Deus
Geralmente queremos que Deus ande conosco, mas nem sempre estamos dispostos a andar com Deus. Andar humildemente com Deus significa reconhecer que Deus é Deus é nós somos o que somos, criaturas imperfeitas e pecadoras. Andar com Deus exige cautela e humildade, porque nem sempre Ele nos levará para onde queremos ir. Tiago diz que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4.6). Ser humilde é, verdadeiramente, o grande pré-requisito de quem deseja andar com Deus.
Tem sido triste perceber que hoje em dia os evangélicos, quando se tornam evangélicos, geralmente se tornam mais arrogantes, orgulhosos, senhores de si, donos da verdade e soberbos. A verdade, porém, é que o verdadeiro evangelho diz: “convém que Ele (Jesus) cresça, e que eu diminua” (Jo 3.30). Não devemos e podemos agir espiritualmente reivindicando, declarando e determinando coisas para Deus, como se Ele nos devesse satisfações, como se ele fosse simplesmente o nosso servo.
Repetindo, é tempo de levantar mais uma vez a voz profética de Miquéias, e dizer que é preciso mudar a conduta pessoal, vivendo na prática da justiça; mudar a postura em relação ao próximo, agindo com mais misericórdia; e mudar a nossa relação com Deus, andando com mais humildade e discernindo quem é quem nessa relação. E que Deus tenha misericórdia de nós.
Pr. Clinton

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